quinta-feira, junho 01, 2017

Vanja Orico: Ela tem Sangue Índio


Vanja Orico, a mais brasileira das nossas artistas internacionais, descobriu os caminhos do Mundo com a sua voz e o seu violão ... Depois de “O Cangaceiro” ela não quer voltar à tela como se fosse uma “raiz selvagem” ... O namorado italiano ... (Cinelândia, novembro de 1953)

Quem não a conhece, por aqui e até no estrangeiro? Neta de índio e de italiano, tem em sua alma jovem, mas já tão vivida, a herança dos nossos antepassados mais puros e aquele senso de universalidade das coisas que caracteriza o temperamento latino. Sente-se presa à terra, a esta nossa terra de tanta cor e de tanto ritmo instintivo, e, ao mesmo tempo, é um coração aberto às emoções de todos os povos, de toda a civilização atual.

Nenhuma outra tão brasileira — e não só no seu cálido tom de epiderme e naqueles fartos e revoltos cabelos negros que lhe emolduram o rosto, mas também no amor que dedica ao nosso folclore e a todas as nossas boas tradições que se possam converter em motivos para a sua arte, numa canção do seu repertório.

E, entretanto, nenhuma outra tão capaz de vibrar ao som das castanholas daquela Espanha sempre sonora, onde passou largo período da sua adolescência, ou de um violino cigano, andarilho, corredor de mundo, que tanto soa aqui como ali, mais adiante, com a mesma e nervosa disposição romântica ...

Assim é Vanja Orico em todo o esplendor de sua mocidade já viajada pelos quatro cantos mais conhecidos deste nosso planeta. Uma sensibilidade íntima do progresso das grandes capitais. Fez um curso de teatro em Paris, sob a direção de René Simon. Diplomou-se em canto pelo Conservatório Santa Cecília, de Roma.

E na Cidade Eterna é que realizou o seu debute cinematográfico, atuando sob as ordens de Alberto Lattuada — o formidável diretor de “Moinho do Pó”, “O Bandido” e “Sem piedade”, (este um legítimo poema de imagens, realizado com todo o vigor da escola neorrealista italiana de após-guerra). Intitulava.se “Mulheres e luzes” (Luci del Varietá), esse filme que marca a sua estreia na tela, em 1951.  A seguir, ganhou o estrelato em “Itália, terra do sol”.

Enquanto isso se dava, continuava ela cantando para reis e princesas reais, para artistas de nomeada e para políticos de grande popularidade, desses que tem clichês nos jornais tanto da Europa quanto da África e da América ... São famosos os seus recitais, que incluem números de procedência europeia, alguns deles bastante eruditos, e músicas daqui da casa, de todo este vasto Brasil, inclusive “pontos de macumba” autênticos ...

 No seu, no nosso país, Vanja Orico andou já pelas selvas, na pele da “Maria Clódia” de “O Cangaceiro” (que, em verdade, foi locado pelo notável Lima Barreto nas matas de Vargem Grande do Sul, no interior de São Paulo) — e agora deslumbra as plateias cosmopolitas de Copacabana, atuando na boate “Meia-Noite”.

Como se vê, é uma quase menina (nasceu no dia 15 de novembro de 1931) que já tem história, que já possui um passado. Mas é no tempo presente que ela vive; é o que a cerca atualmente que lhe desperta o mais vivo interesse (e aqui podemos incluir, talvez, a figura de Jorge, o apaixonado que ela deixou na Itália, mas que deve vir breve ao seu encontro, se é que já não veio, e para ficar ...).

Foi às vésperas da realização do Festival do Rio de Janeiro, para o qual estava comprometida, que tivemos ocasião de conversar com ela em sua residência, num magnífico apartamento de onde se descortina o mar, e que traz aos nossos olhos as lembranças da longa estada na Europa, como diplomata, do escritor Oswaldo Orico, o pai de Vanja. Quadros de Zuloaga, Sorolla, Gauguin, Goya, De Chineo e outros mestres da paleta. Móveis igualmente preciosos, tapeçarias francesas, santos antigos, cristais, raridades recolhidas, com carinho e bom gosto, em vários lugares.

Muito elegante no seu modelo francês, com o qual posou para um dos nossos " kodachromes", e exibindo uma cintura deveras fina, Vanja fez questão de nos declarar que está disposta a não surgir mais na tela como uma “raiz selvagem”, e sim num papel bem feminino, de linha dramática de preferência, e que lhe permita evidenciar um pouco de sex-appeal ...

— Já tem, então, algum filme em vista?

— indagamos.

— Entre outros projetos que acalento no momento está o que se relaciona com a vinda de Lattuada ao Brasil, em março próximo — respondeu-nos. O objetivo desse cineasta é efetuar aqui um filme, “O Fogo”, cuja ação transcorre no norte do Paraná, e do qual devo ser a estrela, junto ao ator italiano Folco Luri (o intérprete de “Vidas Perdidas”). Será esse um papel que gostarei de desempenhar, forte, dramático, e bastante adequado ao meu modo de sentir a realidade cinematográfica. Antes disso, porém, seguirei para a Alemanha, onde efetuarei oito concertos, e logo após para os Estados Unidos, a fim de cumprir ali o maravilhoso contrato que fiz com a televisão americana.

Sabíamos que o poeta paulista Guilherme de Almeida, que afirmara nunca ter ouvido na tela uma voz tão bonita quanto a de Vanja, em “O Cangaceiro”, estava trabalhando no roteiro de uma história que Oswaldo Orico escreveu para o cinema — “Areia menina” — e que a Vera Cruz deve filmar, tendo Vanja como protagonista, e lhe falamos sobre isso.

— É fato, assegurou-nos ela. Mas ainda não sei nada, ao certo, sobre a filmagem.

Desfechamos, então, de surpresa, a pergunta que, de há muito, trazíamos engatilhada, à espera de uma oportunidade:

— E esse rapaz italiano, o Jorge, que chegaram a dizer até que já era seu noivo, representa o seu primeiro amor? Ou já teve outros namorados pelos quais sentisse mais do que simples afeição?

Tornando-se imprevistamente solene, Vanja retrucou:

— Não é ele o meu primeiro amor, mas é o meu grande amor!

E por que não? O jovem é digno de tanto fervor, por parte da nossa encantadora patrícia. Bonito, advogado, amando-a com entusiasmo, tem todas as qualidades para merecer toda essa exaltação de sentimentos. Há uma certa cena de “Fabíola” em que Jorge aparece, na garbosa interpretação de um soldado da época ... Vejam se adivinham quem é ele ... Nós o descobrimos, para espanto de Vanja, numa foto desse filme (que ela própria nos mostrou) e na qual havia mais três rapazes.

É o sexto sentido dos repórteres, meninas ...


Fonte: Revista "Cinelândia" - Novembro de 1953 - Rio Gráfica e Editora.

sábado, maio 27, 2017

O cantor das Graças de Iemanjá

"Peguei um Ita no Norte, e vim pro Rio morar ..." e Dorival contempla nostálgico o navio que talvez o
tenha trazido da Bahia ...

Dorival Caymmi é um acontecimento na música popular brasileira. O cronista e compositor Antônio Maria diz que só deixará de falar nele “quando morrer” ... E todos nós gostamos desse poeta do nosso mais puro folclore ... (Reportagem de Zenaide Andréa e fotos de Kásmer)

“Quem quiser vatapá ... que procure fazê, primeiro o fubá, depois o dendê ...”

Parecia estarmos em plena Bahia, com todo o doce feitiço que emana da sua gente, das suas festas mais típicas, e de todas aquelas crendices que tão fundo marcam a alma do seu povo. Era a saudade que falava alto e sonoro, contando a noite, o vento, a aventura dos saveiros pelos mares de Castro Alves, a história do casario colonial, a solidão do Pelourinho “quando a madrugada purifica e salva o homem que a ladeira cansou, que a vida tentou matar” — conforme disse mesmo Antônio Maria, autor do texto do show que nos deu toda essa impressão, lá na boate Casablanca.


Ao seu lado, a incomparável Ângela Maria, indiscutivelmente a nossa maior cantora no gênero, e outra figura feminina que se Impõe nos nossos meios artísticos: Tereza Austregésilo, que interpreta, em gracioso “travesti”, um personagem das ruas de Salvador, o poeta “Cuíca de Santo Amaro”. Há, também, o jovem ator Paulo Maurício (que já viveu na tela o tipo do cantor de “Espumas Flutuantes”) e unia porção de garotas bonitas e bastante harmoniosas com o ritmo dolente que nos vem, assim, da velha Tomé de Souza ...

Carlos Machado, sempre gentil e interessado em presentear o Rio com belas e novas emoções noturnas, faz parar um instante os trabalhos da representação, para que Dorival venha ao nosso encontro. As pequenas, porém, continuam a repetir os últimos versos que ele entoava, e a bambolear os quadris, como as pitorescas vendedoras das praças públicas de Salvador:

“Não pára de mexê, que é pra não embolá ...”

Caymmi começa, então, a conversar conosco. São flagrantes de sua existência, fragmentos de suas inúmeras lembranças, que lhe acodem naturalmente à memória, nesse instante em que lhe pedimos um pouco do seu destino, para narrar aos nossos leitores... Ele é uma dessas vocações autênticas, absolutamente sinceras, e, como tal, não costuma falar muito de si mesmo. Prefere dizer de suas alegrias ou de seus dissabores cantando, ou compondo, “O Mar”, “Marina”, “O que é que a baiana tem” etc, e, agora, esse fatalista samba-canção que andou já na boca de toda gente: “Não tem solução”...

— Qual, dentre as músicas que fez, é a sua predileta? — indagamos, após recordarmos alguns dos seus maiores sucessos.

— Não tenho preferências, nesse sentido. Para mim, todas se parecem e estão no mesmo plano. O povo é que escolhe ... Por último, acho que preferiu, por exemplo, o “Nem eu” e “Não tem solução”, este feito de parceria com Carlos Guinle.

— E como escreve as suas músicas? Tem algum lugar ou hora especial, para isso?

— Faço-as a qualquer momento, em qualquer canto. Mas, geralmente, trabalho em casa.


Como se sabe, Dorival é casado com a cantora Stel Maris, que abandonou as suas atividades profissionais (na Mayrink Veiga, onde esteve por um ano, e isso depois de surgir vitoriosamente como amadora) pelas obrigações do lar. O casal possui três filhos, Dorival, Danilo e Nana, que constituem o encanto dos Caymmis e dos quais ele nos fala com o mais grato e espontâneo entusiasmo.

Tínhamos sabido que se cogitava de uma reedição do “Cancioneiro da Bahia”, a notável compilação de Dorival, com prefácio de Jorge Amado e ilustrações de Clóvis Graciano. O “cantor das graças de Iemanjá” confirmou a informação — o que é especialmente interessante para quantos apreciam o nosso folclore, e ainda não dispõem desse volume, como é o nosso caso — e acrescentou:

— Será completada pelas minhas novas canções.

A seguir, passamos a tratar de cinema e teatro. Dorival fez parte da representação de “Joujoux e Balangandans”, levada à cena no Municipal há alguns anos, conforme devem recordar os que nos leem. E na tela ainda pela mão do escritor Henrique Pongetti, o responsável por aquele espetáculo, apareceu no “short” “A jangada voltou só”, de Ruy Santos, tendo ainda figurado noutro filme de valor, “Estrela da manhã”, com “script” de Jorge Amado, para a Filmoteca Cultural.

Hoje, porém, dada a intensidade do seu trabalho, na boate da Praia Vermelha, no rádio e na Televisão Tupi, nesta capital e em São Paulo, e às suas gravações e outros misteres correlatos, Caymmi não dispõe de maior tempo para devotar aos estúdios cinematográficos e ao palco. Aliás, em relação ao teatro, embora elogiando o que Pongetti dele conseguiu àquela ocasião a que nos referimos, afirma ter desistido por completo.


Cremos que a sétima arte também não o atrai muito, a não ser como espectador, talvez. Seu gosto pelas coisas da Bahia e o seu amor sem limites pela música que compõe e que canta, são, em definitivo, as “constante” de seu temperamento. Fora disso, tudo o mais será paisagem, para ele — e não a imorredoura sensação da paisagem de Itapoã ...

Dorival nasceu em 30-4-1914. Seus cabelos vão já grisalhando, mas sua face é límpida e sem rugas, com um ar de candura satisfeita, que lhe deve vir da infância livre e descuidada, lá pelas terras cheias de sol da sua querida Bahia...

Tem já o seu nome numa praça de Salvador, na qual cantou para uma grande multidão, que o aplaudiu delirantemente. Não há quem não goste dele. E Antônio Maria escreveu que só deixará de falar de Caymmi, quando morrer ... Nada mais justo e compreensível, acreditem.


Fonte: Cinelândia, edição 24, novembro de 1953 (Rio Gráfica e Editora)