quarta-feira, março 07, 2012

As pastorinhas – Uma tradição que desapareceu

Alguns dias antes do Natal já as pastorinhas traziam para as ruas da cidade o seu cortejo álacre de mocinhas e rapazes que cantavam e caminhavam dançando ao som das melodias que entoavam. Era uma tradição que vinda dos Estados se ambientava aqui na capital e dava uma nota característica aos festejos do nascimento do Menino-Deus.

Procuravam esses grupos reproduzir, rememorar a jornada dos pastores à cidade de Belém onde nascera o filho do carpinteiro José e da Virgem Maria, onde a criança escolhida para trazer os ensinamentos e os exemplos de bondade e cordura do Deus-Pai se fazia homem e iniciava assim o seu sublime apostolado de redenção, de reunir a humanidade novamente no seio do seu Criador do qual se desgarrara.

À frente desses bandos festivos, graciosa menina vestida com alva túnica branca trazia na ponta de uma vara, o mais alto possível, uma pequenina estrela. Era a guia, a estrela que levara os magos do Oriente à estrebaria humilde onde se encontrava o Messias.

Seguiam-na os três reis, com seus mantos bordados, compridos, rentes ao chão, carregando as pequenas arcas com os presentes que iam oferecer ao Menino.

Logo depois, puxando o cortejo de pastores vinha o “velho”, o Papai Noel. Barbas brancas, farta cabeleira de algodão, caminhava a custo, tremendo muito, apoiando-se no seu cajado. E cantava com voz grossa:

Caminhemos, caminhemos
À lapinha de Belém,
Visitar o Deus-Menino
Que salvar o mundo vem.”

E as pastoras, batendo as castanholas nas palmas das mãos, sacudindo os chocalhos, repetiam em coro, com alegria, sempre marchando e gingando o corpo mansamente ao ritmo da música suave que entoavam:

Caminhemos, caminhemos
À lapinha de Belém,
Visitar o Deus-Menino
Que salvar o mundo vem.

Esses passeios, esses desfiles eram feitos para as visitas aos presépios armados nas casas de pessoas amigas onde então as pastoras “tiravam a lapinha”, realizavam a cerimônia da adoração ao Menino-Deus e, ao mesmo tempo, faziam a apresentação do grupo. Chegando à casa onde estava armado o presépio o grupo de pastoras abria-se numa roda ao centro da sala e entoando os cânticos de saudação mostravam as figuras que o compunham.

Eram o caçador, a borboleta, a Samaritana, o Anjo Gabriel, os soldados, enfim um punhado de tipos que vinham, cada um por sua vez, ao centro do grande círculo e cantavam uma quadrinha ou sextilha na qual descreviam a personagem que representavam.

Depois, como nota humorística desse desfile, fazia-se o “Namoro do Velho”. Era uma cena simples, intuitiva, na qual o ancião se tornava “gaiteiro” e cheio de tremeliques aproximava-se das moças para dirigir- lhes galanteios. As pastoras evitavam-no, repetiam o velho cantando:

Sai daqui ó velho,
Velho impertinente,
Não faça vergonha
No meio da gente.”

o velho insistia. As moças repeliam-no cantando outra vez a quadrinha até que entre risos dos assistentes finalizava a cena. Cessava a música. Interrompia-se o cântico. Silenciava o compasso das castanholas. Os donos da casa traziam em bandejas, castanhas, rabanadas, figos, passas e distribuíam-nos com as pastorinhas e assistentes.

Ouvia-se o apito do mestre de cerimônias ou do diretor do conjunto e os visitantes aprestavam-se para sair. Os músicos atacavam a introdução da marchinha e as pastoras, arrastando os pés, marcando passo, deixavam a sala sob palmas e entre vivas, cantando:

Caminhemos, caminhemos
À lapinha de Belém,
Visitar o Deus-Menino
Que salvar o mundo vem.

Iam-se para outras visitas, seguiam em busca de outras casas para repetirem o mesmo espetáculo, para “tirando a lapinha” rememorarem o nascimento de Jesus na pequenina Cidade de Belém.

E, de casa em casa, cantando pelas ruas e nas salas que as recebiam festivamente, as pastorinhas passavam a noite procurando reproduzir ao vivo a jornada da gente humilde que acorreu pressurosa à estrebana onde aconchegado no feno da manjedoura foram encontrar Jesus - a criança escolhida para salvar a humanidade.

Eram assim as pastorinhas que em tempos idos anunciavam o Natal e enchiam de música e alegria a noite do nascimento do Messias.

Hoje, o progresso que destrói tradições, que mata os símbolos de saudade, que não permite a sinuosidade das divagações em que se rememora o passado e quer tudo em linha reta, rápida e decisiva, apontando do presente para o futuro, afugentou de nossas ruas os bandos festivos das pastorinhas.

Os poucos grupos que restam ficaram pelos subúrbios, pelos arrabaldes, onde ainda, na noite festiva da cristandade, continuam entoando seus cânticos, seguindo o velho trôpego que os conduz na jornada alegre, animando-os a prosseguir sempre:

Caminhemos, caminhemos
À lapinha de Belém,
Visitar o Deus-Menino
Que salvar o mundo vem.

(Revista da Semana, 28/12/1940)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.