segunda-feira, março 12, 2012

Caninha, o “Imperador do Samba”

José Luís de Moraes
Já que naquele tempo o negócio era na base da autopromoção, sem plebiscito, sem referendum, cada um classificando-se por iniciativa própria, Caninha proclamou-se "Imperador do Samba". Sinhô, vaidoso, sem constrangimento, intitulava-se "Rei". Logo, sem destronar o seu rival, deixando-o no trono que criara o José Luís de Moraes, popularizado sob o apelido de Caninha, evitando qualquer disputa, satisfazia-se em imperar. Com isso, os dois competidores estabeleciam então (1927) a primeira “coexistência pacífica”.

E o matutino A Pátria, a propósito de um piquenique que O grupo musical do Zé Luís ia realizar nas Furnas da Tijuca, estampava O seu retrato com a seguinte legenda: “Caninha, o Imperador do Samba”. Daí em diante esse título passou a ser por ele usado com muita assiduidadee igual orgulho. Só mais tarde (1933) ao vencer no Teatro João Caetano (em parceria com o Visconde de Bicohyba) um concurso de músicas carnavalescas com a sua composição É Batucada, relegou tal império. Passou a jactar-se de ser o único que tinha um “diploma oficial de sambista”.

Genealogia do apelido

Esse Imperador e depois “Sambista Oficial”, morreu pobre, bem pobre mesmo, no subúrbio de Olaria, em junho do ano findo, tendo a seu lado a velha companheira e os amigos certos, Pixinguinha, Donga, Bide e pouquíssimos outros. Deixou, no entanto, com o apelido que lhe adveio de seu emprego de vendedor de roletes (rodelas) de cana, uma bagagem importante em nosso cancioneiro popular. Músicas todas elas de melodia e letra simples, despretensiosas, que o povo cantava nas ruas e principalmente no tríduo carnavalesco.

Embora a sua infância difícil, de órfão, nascido em Jacarepaguá e criado na Rua Senador Pompeu, o obrigasse a ser aprendiz de mecânico e jornaleiro na gare da Central do Brasil, foi a venda de pedaços de cana que lhe deu a alcunha. Cantava o seu pregão: “Olha o rolete de cana, de caninha doce!”, e o seu nome José desapareceu para que vingasse absoluto o apelido Caninha Doce, depois simplificado e consagrado em suas marchas e sambas apenas como Caninha. Uma genealogia fácil, intuitiva, do apelido de um “Imperador” e “Sambista Oficial”.

“Rei” versus “Imperador”

Oficiais do mesmo ofício, procurando cada qual dominar o ambiente musical com as suas produções, José Luís de Moraes (Caninha) e José Barbosa da Silva (Sinhô) faziam sua guerra fria, diplomática, simplesmente musical. Ficou até atestando tal contenda a conhecida quadrinha: São dois cabras perigosos,/ São dois cabras infernais,/ José Barbosa da Silva,/ José Luís de Moraes. Versos cuja autoria se atribui, segundo Brício de Abreu, ao revistógrafo Carlos Bittencourt e, nos informes de Almirante e Sérgio Cabral, ao próprio Caninha.

Procuravam competir um com o outro sempre que se oferecia oportunidade e isto aconteceu algumas vezes como, para exemplo, em 1922, quando o fabricante de Lugolina promoveu um concurso de músicas carnavalescas. Venceu esse certame Caninha impondo a marcha: “Ai! ai!,/ Me sinto mal/ Depois do Carnaval”, enquanto Sinhô descia para o segundo lugar com: “Não é assim,/ Assim não é/ Não é assim/ Que se maltrata uma mulher”. Rivalidade, como se viu, decidida em clave de sol e nas cinco linhas da pauta musical, na dignidade de um “Rei” e um “Imperador”.

Contribuição ao Carnaval

Compositor nitidamente popular, procurando apenas atender ao gosto do povo, quase toda a bagagem musical deixada por Zé Luís de Moraes está ligada ao Carnaval que o tinha como um dos adeptos mais ardorosos de um outro “Rei”, o Momo. Feniano, sempre presente aos bailes dos Gatos (apelido dado aos sócios) dedicou ao veterano clube carnavalesco um maxixe bem buliçoso, porém pouco difundido. Faça-se, então, conhecido o seu estribilho: “No salão dos Fenianos/ Existe muita alegria./ Ai! ai! ai!/ Quer de noite, quer de dia./ Sapateia todo o ano/ Fazendo roda no meio./ Este samba feniano/ Quem não dança só faz feio.

Antes, menino ainda, já tomava contato com os maiorais do Carnaval na casa da famosa Tia Sadata (que muitos confundem com Tia Assiata) integrando o Rei de Ouro, ali fundado e que Donga afirma ter sido o primeiro rancho oficial carioca. Mais tarde, sempre carnavalesco, a par de seus sambas e marchinhas (Esta nêga qué me dá, Me leva seu Rafael, etc.) integrou outro renomado rancho, o Recreio das Flores, onde, disseram alguns de seus biógrafos, foi mestre de canto. Tratava-se, no entanto, de notório equívoco, pois sendo a sua voz fraca, reduzida, não poderia ter essa atribuição que, parece, era confiada ao vibrante João Moleque.

Sambista morre com música

Morrendo aos oitenta anos, ou beirando isso, pois o seu nascimento é dado em 1881 ou 1883, José Luís de Moraes, o simplesmente Caninha nada legou à sua “velha”, como ele chamava amistosamente a companheira de uma longa e difícil vida. Um antigo “Imperador” e “Sambista Oficial”, cuja derradeira produção foi uma marcha, espécie de hino, dedicada aos futebolistas brasileiros campeões do mundo em 1958, exaltando o memorável feito, baixou à uma cova rasa, sem honrarias. Deixou, talvez atestando sua oficialização de sambista, o diploma que lhe dava essa condição.

Ravel fez para uma “infanta defunta” uma pavana onde seu talento de musicista se patenteia forte, exuberante. Sinval Silva ao compor Imperador do Samba, interpretado esplendidamente por Carmen Miranda, talvez não tenha pensado no veterano Caninha que foi justamente isso: “Imperador” do nosso ritmo. Motivo e título de sua música. Justíssimo, portanto, que se atribua ao saudoso Caninha tão glorificantes versos:

Silêncio!/ Façam ala / Ordem e respeito/ E nem um grito de bamba./ Quero tamborins em grande gala/ Que vai pasar/ O Imperador do Samba.

(O Jornal, 9/12/1962) 
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.