quinta-feira, março 15, 2012

Getúlio grava pontos da macumba

Getúlio Marinho
Embora Villa-Lobos (segundo informa Vasco Mariz em seu livro A Canção Brasileira) tenha citado J. B. de Carvalho “pelo seu ambiente de macumba tão bem representado No terreiro de Alibibi, Getúlio Marinho, o Amor (hoje com 72 anos) além de precedê-lo no gênero foi muito mais expressivo. Convivendo com os africanos praticantes das religiões e ritos do continente negro e com os baianos a eles ligados, tais como João Alabá (famoso pai-de-santo) e Hilário Jovino Ferreira (iniciador dos ranchos carnavalescos no Carnaval carioca), os pontos de macumba que levou para o disco tiveram, ambos, perfeita autenticidade melódica e interpretativa.

Gravados por Eloy Anthero Dias, um veterano das rodas de samba, hoje paredro da Escola Império Serrano, tiveram, afora o êxito comercial decorrente de seu inusitismo, o interesse de estudiosos e de folcloristas pela excelente mostra que faziam. Foi, pois, como se poderá constatar, Getúlio Marinho o pioneiro e quem com maior fidelidade transportou para as chapas fonográficas os cânticos da macumba.

“Amor”, apelido que veio da Bahia

Filho de Antônio Marinho da Silva (conhecido como Marinho-Que-Toca) e de Paulina Thereza de Jesus, Getúlio ganhou o apelido de Amor desde menino, na Bahia, onde nasceu na Rua de Baixo. Vindo para o Rio integrou-se logo entre os sambistas e carnavalescos e aos cinco anos já era um dos componentes do Rancho Dois de Ouro no qual figurou como “porta-machado”. Pouco depois se iniciava com Hilário Jovino Ferreira no aprendizado da coreografia dos mestres-sala e chegou a ser um dos mais exímios até hoje reconhecido como tal.

Dançando com mestria, exuberante de garbo e destreza, passou então a ser disputado e assim fez parte, entre outros grêmios, do Rei de Ouros, do As Jardineiras, do Flor do Abacate, do Reinado de Siva. Seus concorrentes, Zinho, Aniceto de Menezes e alguns poucos mais, temiam-no reconhecendo sua superioridade. E, sem esconder o receio de com ele se defrontarem nas competições, diziam: “com o Getúlio, o Amor, vai ser difícil. O homem dança muito...“. Graças ao seu virtuosismo foi convidado para tomar parte na revista Dança de Velho, encenada em 1916 no Teatro São José, na qual se exibiu com fartos aplausos.

Os “pontos” da macumba vão para o disco

Freqüentador de vários terreiros, conhecendo bem o ritual e os cânticos ali entoados cm louvor dos santos que baixavam, Getúlio Marinho resolveu levar para o disco alguns dos pontos ouvidos. Foi buscar então EIoy Anthero Dias, capaz de entoá-los na característica melódica própria, e teve-se em excelente gravação o Ponto de Ogum (São Jorge) assim interpretado: “Oia gente capitã de aiê./ Oia gente cumandante uaiá./ Quem mi chama capitã do aiê./  eu sô capitã do uaiá.

Na outra face da chapa, com idêntica fidelidade, estava o Ponto de Inhassã (Santa Bárbara) cujo refrão simples: “Macumbembê, macumbê, girá./ Macumbembê, macumbê, girá”, transmitia, igualmente, com exata expressão melódica muito do fervor e do exotismo da música e letra. A apresentação, a primeira que se fazia no gênero, logrou, como era esperado, grande sucesso de vendagem graças à difusão fartamente feita pelas vitrolas das casas do comércio de discos.

“Tenha calma, Gegê”, ditado que ficou

Apesar de ser Pula a fogueira, canção que fez para os festejos juninos, em 1934, a sua composição de maior rendimento, até hoje, em direitos autorais, Tenha calma, Gegê, lançada no mesmo ano, e que se atribui focalizar o presidente Getúlio Vargas, representa na bagagem musical de Getúlio Marinho o sucesso mais expressivo. O refrão: “Tenha calma, Gegê/ Vou ver se faço alguma coisa por você” passou a ser ditado correntio que se ouve comumente no sentido irônico da marchinha onde se originou.

Igual popularidade, não tão intensa quanto a citada, obteve também Apanhando papel, na voz de Francisco Alves, cujos versos: “Não queira saber/ como a vida do homem é cruel,! se ele é fraco de idéia/ acaba apanhando papel”, tinham o jeito de advertência galhofeira muito ao sabor carioca. Este samba, não sobrepujando em popularidade o Tenha calma, Gegê, do qual foi parceiro Eduardo Souto, acompanhou-o, no entanto, (sem incluírem-se os referidos pontos de macumba) na preferência do público. São reconhecidamente produções de destaque, dentre as muitas, de autoria de Getúlio Marinho, o Amor.

Getúlio “baixa” ao hospital

A terminologia dos quartéis usa o verbo baixar para designar a ida ou permanência na enfermaria. A gíria também o adota e, assim, Getúlio ao se internar no Hospital dos Servidores do Estado da Guanabara preferiu-o ao invés de outro termo qualquer. O autor de tantas músicas que caíram no domínio das ruas, o aplaudido mestre-sala das evoluções fidalgas e bizarras, o apresentador dos pontos de macumba em disco lá está num leito tendo a seu lado, dedicada e amiga, sua companheira de quase vinte anos de vida pobre, difícil, Placinéia Sampaio Pereira.

Calmo, tal como recomendara ao Gegê de sua marchinha carnavalesca, submete-se ao tratamento que lhe ministram médicos e enfermeiras, quase todos conhecedores de seus êxitos musicais. Confiante no Deus das religiões dos brancos e nos santos dos pretos seus irmãos de cor, reafirma a fé no seu orixá, que, como cantou no seu aludido samba (Apanhando papel) o fará restabelecer-se, “não há de deixar” de ampará-lo.

(O Jornal, 7/4/1963)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.