segunda-feira, março 12, 2012

Hilário acusa Sinhô de plágio

Hilário Jovino Ferreira
Em 1920, Hilário Jovino Ferreira, iniciador dos ranchos no Carnaval carioca, “baiano legítimo, da gema, nascido, criado e vacinado na Cidade Alta da Bahia de São Salvador”, apontava o já popularíssimo Sinhô como plagiário. Fazia-o com sua autoridade não de “tenente” que o era da muito satirizada Guarda Nacional, mas de reconhecido conhecedor do autêntico samba cujas “rodas” freqüentava desde menino na “boa terra”.

Sem meios termos denunciava pelas colunas do Jornal do Brasil, onde pontificava um seu amigo, o cronista carnavalesco Vagalume (Capitão Francisco Guimarães) a ilegitimidade da autoria do Fala, meu Louro. Acusação que o jornalista, sempre ávido por uma “fofoca”, imediatamente divulgou com a fidelidade textual: “. . . é um dos mais audaciosos plágios de que há notícia na história dos sambistas”. Isto acrescido de solene desafio ao acusado para que ele e o acusante se submetessem à prova pública fazendo cada um o seu samba.

Um samba agita a “boa terra”

Embora o Fala, meu Louro tivesse sentido ostensivo de glosa política focalizando a personalidade de Ruy Barbosa, subjetivamente seus versos ironizavam também os baianos tidos e havidos como “donos” do samba. Dizendo: “a Bahia não dá mais coco pra botar na tapioca, pra fazer o bom mingau pra embrulhar o carioca”, José Barbosa da Silva, o Sinhô, fazia a um só tempo duas provocações. Coisa que era muito de seu gosto, pois, antes, em 1918, o Quem São Eles?, composto com tal intenção, teve pronta resposta de Pixinguinha no Já Te Digo.

Voltando, dois anos depois, a provocar os baianos, que no samba tinham como seu “maioral” Hilário encontrou pronta reação. O Tenente que, na mesma oportunidade de 1918, também participara da querela musical havida, quando lançou o Não És Tão Falado Assim, não perdoou o antigo rival. Assim que Sinhô lançou e via caminhar para o sucesso sua nova produção, correu ao amigo jornalista com quem contava na imprensa para ver posta em letra de forma a denúncia do plágio. Provaria, então, que a Bahia ainda dava coco e não pretendendo embrulhar ninguém, não o seria, no entanto, embrulhada por um carioca.

Desafio em feitio de samba

Um dos muitos sambas da parceria Noel Rosa-Vadico tem um verso onde ela diz haver feito o seu “samba em feitio de oração”. Pois bem, antes, nessa lide musical de 1930, Hilário, ao taxar Sinhô de plagiário, lançou, como ficou dito, um desafio, não só ao acusado, mas a “todos” os sambistas para que fizessem, de momento, um samba. Concluía o repto, que o mesmo Vagalume tornava público no referido matutino depois de condimentá-lo com certa dose de “veneno”, juntando-lhe um samba ferino, maldoso: Entregue o Samba aos Seus Donos.

Lia-se então o sarcástico poemeto: “Entregue o samba aos seus donos,/ é chegada a ocasião!.../ Lá no Norte não fizemos/ do pandeiro profissão.” A seguir vinha o coro: “Falsos filhos da Bahia/ que nunca pisaram lá,/ que não comeram pimenta/ na muqueca e vatapá,/ mandioca mais se presta,/ muito mais que tapioca./ Na Bahia não tem mais coco?/ É plágio de um carioca.” Era, não resta dúvida um revide duro, na “batata”, à canção que ironizava a decantada “terra de todos os santos” proclamando a falência de seu coco.

O acusado “se mancou”

A gíria carioca, farta e prolífera, consigna a expressão “se mancar” que espontaneamente atentando contra a gramática, significa, entre seus vários sentidos, esconder-se, fugir ao debate, não topar um desafio. Sinhô, ao que se tem conhecimento, não contestou a acusação do Tenente. Surgiu conseqüentemente outro libelo em forma de samba, reforçando a glosa mordaz de Hilário. No mesmo jornal, dias após, Pedro Paulo, renomado autor de um punhado de ranchos carnavalescos, publicava Olé, cujos versos secundavam, também em ritmo de samba, o deboche feito anteriormente.

Acostumado a escrever letras alegóricas, pomposas, Pedro Paulo mostrava-se igualmente capaz de ser irônico ao cantar: “Todo mundo faz um samba,/ eu também quero fazer,/ mas dizer que é da Bahia,/ olé!,/ não pode ser./ A Bahia é boa terra, já não dá mais coco,/ não!, quem quiser tudo saber/ erra,/ olé!,/ é toleirão. Pelo suco tudo passa,/ basta falar em iaiá,/ mas um sambinha/ sem graça,/ olé!,/ não vem de lá.”

Tendo já agora que refutar as imputações de plagiário e revidar com música e versos como era de praxe nas polêmicas entre sambistas, o achincalhe de dois famosos rivais, José Barbosa da Silva não veio à liça, “se mancou”.

Apesar de tudo, a popularidade

A acusação de plagiário feita por figura proeminente do samba como o Tenente Hilário Jovino Ferreira, reforçada, ainda nesse 1920, quando do lançamento do Pé de Anjo, não afetou a popularidade de Sinhô. A primeira, do Fala, meu Louro, ficando circunscrita às rodas dos sambistas não chegou ao conhecimento do grande público. A segunda, identificada facilmente, pois se apontou a origem em uma música francesa, apesar de ventilada na imprensa, também não impediu o sucesso do aproveitamento irregular. Ambas triunfaram de maneira inconteste.

Contando com verdadeira multidão de admiradores, tendo toda a cidade cantando seus sambas, Sinhô fazia-se superior. No próprio Pé de Anjo, ao dizer: “eu tenho uma tesourinha que corta ouro e marfim, serve também pra cortar as línguas que falam de mim”, alheiava-se ao debate, às provocações. Deixava que seus fãs, os fazedores do êxito de suas composições, contestassem seus acusadores. E eles apareciam sempre, pressurosos. Como o fizeram Jacobino Dias e Romualdo Silva num sambinha de rima imperfeita em que diziam: “No samba só conhecemos/ o Sinhô das criaturas,/ não há um samba dele/ que não se cante em todas as ruas.

Pouco lhes importava que fossem ou não, plágio, cópia, utilização dolosa de trabalhos alheios.

(O Jornal, 3/3/1963)
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.