quarta-feira, março 07, 2012

Maria Adamastor

O rancho Reinado de Siva, tendo Maria Adamastor (indicado pela seta) como mestre-sala.

Seu nome verdadeiro, aquele com que firmava documentos e papéis oficiais, era Maria da Conceição César. Ganhou, no entanto, um apelido que, juntado ao seu prenome, passou, desde então, a identificá-la na vida comum mas, principalmente, nas lides carnavalescas: Maria Adamastor. E foi com essa antonomásia, nascida de simples incidente, de mera brincadeira, que brilhou nos folguedos de Momo integrando, como porta-estandarte e mestre-sala (baliza), vários ranchos dos mais famosos entre seus congêneres.

A velha guarda do tão decantado Carnaval carioca que conheceu a nossa festa máxima nos seus áureos tempos, há de se recordar, sem dúvida alguma, do Rosa Branca, do Flor da Romã, do Papoula do Japão, do Reinado de Siva. Todos eles ranchos que se tornaram tradicionais no histórico da folia momesca e dos quais Maria Adamastor, quando não formou entre os fundadores, teve sempre lugar de destaque como dirigente ou integrando seus vistosos cortejos.

Do navio veio o apelido

Seu apelido, o cognome sob o qual se popularizou, surgiu, com já se disse, de ocasional gracejo: “Puxa, você parece o Adamastor!”. Dessa frase, dita por uma sua colega em quem, durante os ensaios de um dos ranchos a que pertencera, dera acidentalmente um esbarrão fazendo-a cair, originou-se um novo nome para Maria César. Comparando-a ao cruzador português que estava fundeado na Guanabara para, como homenagem do governo luso, participar das festas de posse do marechal Hermes da Fonseca na presidência da República (em 1910), a atingida tornava proscrito o legítimo sobrenome de Maria. Nascia, então, a alcunha Maria Adamastor.

Esse apelido que proclamava a potência da belonave portuguesa, consoante o orgulho da colônia lusa, jamais se despegou da popularíssima carnavalesca. Chegou mesmo a ter foros de nome próprio como se pode deduzir de certa notícia publicada muitos anos depois (1921) no Jornal do Brasil. Registrando a passagem do rancho Reinado de Siva em frente à sua redação disse o veterano matutino: “... Foi mais um grande sucesso na avenida Rio Branco, tendo a mestre-sala, Sra. Maria Adamastor, que se achava ricamente fantasiada, executado admiráveis manobras e dançado com pose inexcedível...“

Do Jardineira ao Reinado de Siva

Carioca, nascida na rua do Hospício (hoje Buenos Aires), Maria César, por sua convivência com os baianos que trouxeram para o Rio os ranchos dos festejos natalinos e carnavalescos da ‘boa terra’, era tida por muitos como vinda daquele Estado. Juntando-se a eles recolheu seus ensinamentos e começou por fundar o Jardineira e, mais tarde, o Rosa Branca. Em 1909, já com sua comadre Juliana Emília dos Santos, a quem se deve muitos dos informes aqui expostos, fazia parte do Papoula do Japão, que tinha sede na rua Dona Feliciana nº 2 e no qual, por eleição, tinha o cargo de Mestra.

Imperando já os ranchos no Carnaval da Sebastianópolis, pois que os barulhentos zé-pereiras e os briguentos ‘cordões’ iam desaparecendo para dar lugar à inovação graciosa e musical, Maria Adamastor passou a ser disputada por quase todos eles.

Formou, assim, no Sempre Vivas, no Flor da Romã, no Rei de Ouros, no Macaco é Outro, e muitos outros. Ora figurava no cortejo como porta-estandarte garbosa, impondo-se aos aplausos do povo, ora era a mestre-sala em bizarras evoluções coreográficas em que demonstrava leveza de movimentos e porte fidalgo.

No Reinado de Siva a despedida

Já consagrada, com o seu nome pronunciado com certa veneração nas rodas carnavalescas, Maria Adamastor ingressava, em 1921, no rancho Reinado de Siva, cuja sede estava situada na rua Senador Pompeu. Suscitava, na ocasião, o seguinte registro num matutino:”... Maria Adamastor, a rainha das diretoras de ranchos, assumiu, de verdade, a responsabilidade das pastoras do Reinado de Siva. O Titinho vai dedicar-lhe uma marcha...”. Tal nota, simples, sintética, dizia bem do valor da aquisição feita pelo grêmio referido para seu próximo desfile nos prélios que então se travavam na avenida Rio Branco.

Tivemo-la, conseqüentemente, brilhando nos majestosos cortejos que o rancho apresentou em 1921 e 22, subordinados, o primeiro, ao tema Lei Áurea e, o segundo, ao Jardins Suspensos da Babilônia. Em ambos, confirmando o renome que tinha, vestida luxuosarnente, exibindo-se com rara mestria, logrou os mais calorosos elogios da crônica carnavalesca que, naquela época, tinha lugar de destaque na imprensa citadina. Achou, porém, que devia encerrar suas atividades carnavalescas e dedicou-se, depois disso, a cuidar apenas de sua casa de petisqueiras a baiana, no velho Mercado Municipal.

Morre Maria, fica a fama

Ataulfo Alves, compositor que tem enriquecido o nosso cancioneiro popular com tantas produções de sucesso, diz numa delas estar certo de que não terá o seu nome jogado “na lama”, pois, conclui rimando, “morre o homem fica a fama”. Com Maria Adamastor que vimo-la triunfante nos ranchos a que pertenceu, que teve em suas casas da rua da América e rua Nabuco de Freitas o assédio de carnavalescos solicitando seu concurso para diversos ranchos, acontece agora exatamente isso. Seu nome, o apelido que a tornou célebre no Carnaval carioca, desfruta merecida fama.

Numa modesta casa de subúrbio na Piedade, depois de longa doença, faleceu deixando um nome que se tornou tradicional entre os carnavalescos dos velhos tempos. Não só a sua fiel comadre e companheira por muitos anos de folguedos, Juliana Emília dos Santos, o pronuncia com veneração. Todos que a conheceram, que conhecem ou vierem a conhecer a contribuição dada por Maria Adamastor à grandiosidade de nosso Carnaval (a despeito de tudo, ainda tido como ‘o melhor do mundo’) hão de, igualmente, perpetuar a sua fama, como proclama o sambista.

(O Jornal, 30/12/63)
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Fonte: Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 326p. :il.