quinta-feira, março 15, 2012

Músicas das estranjas dominaram no Carnaval

Os Geraldos retornam da Europa, em 1909,
lançando a canção americana "Caraboo"
Apesar de sempre contarmos com um batalhão de musicistas populares, de compositores de canções simples, brejeiras, fáceis de ser aprendidas, o nosso Carnaval já foi dominado várias vezes por melodias alienígenas, das estranjas. Algumas através de adaptações, outras apenas com novos versos e ainda, fora desses dois grupos, as que poderíamos denominar de caricaturas de temas harmônicos eruditos ou preciosos. Tudo, no entanto, sem a essência intrínseca do brasileirismo e, principalmente, da bossa carioca.

Na verdade, tais aproveitamentos, contrafações, ou mesmo plágios, se preferirem o rigor desta última classificação, acabaram ficando com bastante sabor de coisa nossa e, no caso, caracteristicamente carnavalescas. Assim aconteceu com o trecho de I1 Guarany (grafado propositadamente deste modo para lhe dar maior imponência artística) que toda a cidade cantou em ritmo das ruas: “Mandei fazer um terno de jaquetão, prá ver Carleto e Roca na Detenção”. Glosa referente a dois criminosos célebres e que, embora seu objetivo, terminou dominando no tríduo da folia.

A “Caraboo” do Norte vem para o Carnaval do Sul

Numa época em que o Carnaval não tinha como hoje um cancioneiro a ele destinado e, fugindo das grosseiras práticas do entrudo, começava uma nova fase verdadeiramente recreativa, o povo entoava apenas simples copias ou refrãos. Do “Dengo, dengo, dengo, ò maninha”, até o Corta jaca ou o Abre alas qu’eu quero passá, pouca coisa se fez de certa expressão autenticamente artístico-popular. Ao findar, porém, do primeiro decênio do presente século, com o maxixe imperando nos clubes carnavalescos, Os Geraldos duelistas brasileiros que regressavam de uma temporada na Europa, traziam uma novidade para os cariocas: a Caraboo.

Incluídos como atração na revista Fandangussu, estreada no Teatro São Pedro de Alcântara (hoje João Caetano) em janeiro de 1913, obtinham grande êxito cantando: “Ò minha Carabu dou-te meu coração, és a minha paixão, para mim só tu, minha Carabu.” Era esta a versão, com rimas infantis da letra original: “Suret little Caraboo/ I am in love with you/ My heart is aching/ While you am waiting,/ Suret little Caraboo.” Música simples, letra primária, tal cançoneta norte-americana de autoria de Sam Marshall, lançada nas proximidades dos festejos de Momo, tornou-se popularíssima e nos bailes, na Avenida Central, todos a cantaram. Inspirou até a formação do Grupo do Carabus, cujo estandarte foi feito por Alekso Fanzeres.

Da “Jenny” francesa saiu o “Pé de Anjo” carioca

Alguns anos depois do triunfo da Caraboo, cujo poema contava “com singeleza o amor que um guerreiro tinha por uma princesa”, o Carnaval carioca já tinha foros de parada musical. Em 1920, quando se ouvia os precários fonógrafos gritar o clássico “Casa Edson, Rio de Janeiro”, com uma turma de bons compositores produzindo sambinhas gostosos (Donga, Pixinguinha, Caninha, etc.) Sinhô, titulando-se ou intitulado Rei, era popularíssimo. Nesse ano, abundando em inspiração, soltou o Papagaio Louro, ironizando a Bahia que não dava “mais coco pra embrulhar os cariocas” e, como se fosse pouco, fez também o Pé de Anjo.

Querendo provocar o China, irmão do Alfredo Vianna (Pixinguinha), que tinha “o pé tão grande capaz de pisar Nosso Senhor”, não vacilou em aproveitar o tema melódico de uma cançoneta francesa. Ouvindo-a na Casa Beethoven (segundo depoimento de Fileto Moura, gerente do estabelecimento) veio-lhe a idéia de uma adaptação algo camuflada para não denunciar a origem. O estribilho: “Oh!, oh!, oh!/ oh!, c’est pas difficile,/ il n’y a que chanter/ oh!, oh!, oh!, oh!, oh!”, levemente alterada sua harmonização, prestou-se ao conhecidíssimo: “Ó pé de anjo, Ó pé de anjo, és rezador, és rezador, tens o pé tão grande que és capaz de pisar Senhor!”.

A Maria Rosa da opereta e o “cielito” do México

Na década dos 30, quando um grupo de novos compositores com Ary Barroso, Lamartine Babo, João de Barro, Alberto Ribeiro, J. Freitas, Haroldo Lobo e tantos outros entrava na competição musical que acontecia em janeiro, o nacionalismo imperou. Dezenas ou mesmo centenas de sambas e marchinhas de autoria dessa turma eram difundidas pelas rádios em seus programas e chegavam ao Carnaval com toda a cidade conhecendo-as e definindo suas preferências. Foi então que o caricaturista Antônio Nássara, sozinho, sem o seu constante parceiro Erastótenes Frazão resolveu fazer na música uma charge similar às do seu lápis. Ao invés da Rose Marie, fez outra de nome transposto.

Decalcou a melodia da opereta trazida ao Rio por uma companhia francesa que inaugurou o Teatro João Caetano em junho de 1930 e, em 1932, perguntava: “Cadê Maria Rosa, tipo acabado de mulher fatal?..”.

Ninguém lhe informou sobre a moça da “cicatriz” porque dez anos após, Henricão e Felisberto avisavam: Está chegando a hora. Tinha-se desta feita a importação clara de uma canção mexicana, a Cielito Lindo, de A. Sedas e F. Tudela, com versos singelos: “Ai, ai, ai, ai/ está chegando a hora/ o dia já vem raiando,/ eu tenho que ir embora.” Traslado no qual ficou evidente a matriz: “Ay, ay, ay, ay!/ canta y no llores,/ porque cantando se alegran,/ cielito lindo,/ los corazones.

E não ficou dito tudo

Assim como o pastor achava curta a vida para um longo amor, não foi possível nas limitações dadas a este assunto exemplificar todos, ou quase todos, os momentos em que a música estrangeira dominou no Carnaval carioca. O sempre prestimoso Almirante a cujos arquivos precisos recorreu-se para recolher partitura e letras das canções aqui focalizadas apontou muitos outros. Ficou-se tão-somente nos mais expressivos, aqueles cuja voga no período carnavalesco deram-lhe absoluta característica de sucesso marcante. Poder-se-ia, no entanto, acrescentar à exposição feita a conhecidíssima valsa Os Patinadores, Caminito e alguns mais.

Simples digressão, sem pretender a substância de um ensaio ou estudo, ela conseguiu, não há dúvida, atender ao enunciado em sua epígrafe. A despeito do absolutismo da música popular carioca em nosso Carnaval, houve e pode haver influências estranhas. Assim como as melodias de outros Estados têm conseguido aceitação ou mesmo predomínio na festa máxima da Sebastianópolis (Cabôca de Caxangá, Teu cabelo não nega), as de outros não lograram igualmente triunfar. Procede, pois, o título acima: “Músicas das estranjas dominaram no Carnaval carioca”.

(O Jornal, 21/4/1963) 
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.