quarta-feira, março 07, 2012

O condutor de bonde

O condutor de bonde vem sendo, há bastante tempo, personagem glosada em muitos sambas e marchinhas carnavalescas. Os compositores transformaram-no em mote, em assunto satírico, chistoso, de suas produções. As dificuldades que o humilde servidor da Light enfrenta nos dias da pagodeira quando os bondes rodam cheios, superlotados, carregando foliões em algazarra, dão motivo aos nossos musicistas de Carnaval para canções humorísticas, ironizantes, maliciosas, quase sempre de estribilho leve, de letra fácil de ser aprendida.

Um sem número de marchinhas e de sambas já foi feito. Seria difícil, quase impossível, rememorá-los todos com precisão. Todos foram cantados pela cidade inteira e passaram, muitas vezes, de um Carnaval para Outro, a despeito de canções novas que apareciam, de outros sambas e marchinhas mais recentes que traziam, ainda, a figura do condutor como assunto de suas letras.

Uma dessas canções feitas, há já bastante tempo, por J. Cascata e Leonel Azevedo, tinha o seguinte estribilho:

Não pague o bonde iáiá,
Não pague o bonde iôiô,
Não pague o bonde
Que eu conheço o condutor...
Quando estou na brincadeira
Não pago o bonde,
Nem que seja por favor.”

Era uma marchinha bonita, de música simples, que os foilões retinham no ouvido. E, depois, em blocos, grupos e cordões, trepados no estribo ou sentados nas costas dos bancos do bonde, entoavam bem alto, animados, enquanto o condutor, a custo, suando muito, equilibrando-se no balaústre, recolhia os níqueis, apanhava os tostões dos passageiros, ou seja das “iáiás” e dos “iôiôs”. Estes e aquelas, atendendo ao que pedia a canção, fazendo o que a marchinha mandava, esquivavam-se ao apelo do “faz favor”, relutavam em pagar a passagem.

Alvarenga e Ranchinho, os dois caipiras que o falecido Duque (Amorim Diniz) trouxe de São Paulo para apresentar ao Rio quando dirigia a Casa de Caboclo, que funcionou durante muito tempo no Teatro Phoenix, também usaram o condutor numa marchinha feita para animar um de nossos Carnavais passados.

Os dois conhecidos artistas, hoje já muito aplaudidos em nossos cassinos, teatros e auditórios de emissoras em que têm atuado com grande êxito, apresentaram, então, nessa canção carnavalesca, o condutor num segundo plano, pois que a letra se demorava passando em revista a nomenclatura e o itinerário dos bondes:

O bonde da Lapa
É cem réis de chapa.
o bonde Uruguai
Duzentos que vai.
o bonde Tijuca
Me deixa em sinuca
E o Praça Tiradentes
Não serve pra gente.”

A letra, engraçada, divertida, além de focalizar o recebedor da passagem, criticar os nomes das linhas, glosava o preço das viagens. Na composição, para lhe dar característica própria, para colori-la, entrou como efeito musical o “tim-tim” da campainha, recurso que a tornou espontânea e interessantíssima.

Era assim o seu estribilho:

Seu condutor, tim-tim,
Seu condutor, tim-tim,
Pára o bonde
Pra descer o meu amor.”

Nos idos de 46, no “Carnaval da Vitória”, assim chamado por ser o primeiro que se realizou após o término da Segunda Guerra Mundial, o mesmo Alvarenga, já então dissociado do seu companheiro Ranchinho e agora em parceria com Felisberto Martins, lançaram os dois uma sátira musicada ao sempre lembrado condutor. Era em ritmo de marcha a nova composição carnavalesca que teve o título de Canção do Condutor.

Reproduzimos aqui seus maliciosos e satíricos versos:

“Seu condutor,
Ali right!
Você assim
Vai acabar sócio da Light.

Seu motorneiro
Toca o bonde, toca o bonde,
o meu amor está esperando por mim.

Senão eu canto a canção do condutor
Que é sempre assim:
Um pra Light,
Um pra Light,
E dois pra mim.”

Duvidamos que o condutor, mesmo abusando dessa percentagem de “tubarão” acabe sócio da Light como os autores da marchinha preconizavam.

O condutor continua, até hoje, pendurado no balaústre dos bondes, usando o seu clássico “faz favor” como convite ao pagamento da passagem, como apelos aos caronas que se fazem surdos ou distraídos.

Após o “Carnaval da Vitória” os compositores deixaram em paz por muito tempo os condutores não os trazendo mais para motivo de suas produções. Cremos que nenhuma marchinha ou sambinha voltou a satirizá-los nesses oito anos.

Eis porém que A. Netto, Aldacir Louro e Rubens Fausto resolvem fazer ressurgir o inefável condutor e, quase reeditando as velhas canções, usando frases características de tais composições: o “tim-tim”, o “dois pra Light e um pra mim”, deram-nos no Carnaval deste ano o “Conduta do Taioba”.

o condutor veio apresentado na corruptela que a gíria usa e o veículo de segunda classe acompanhou-o também vindo na sua designação pitoresca.

Eis a letra em questão:

O conduta deste taioba,
diz que é honesto quando cobra,
mas toda vez que faz fim . . . fim...
logo vai dizendo, dois pra Light e um pra mim.
Ele anda pendurado o ano inteiro.
É muito vivo e não tem nada de otário.
Fazendo tim... tim ...
Fazendo fim... tim ...
Este conduta acaba milionário.”

(Revista da Música Popular, n° 5 — Fev. — 1955) 
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Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.