quarta-feira, março 07, 2012

Os musicistas populares esqueceram o Natal

João de Barro
Outrora quando as festas carnavalescas não começavam tão cedo como sucede hoje, em que desde novembro os rádios já estão lançando as modinhas que vão empolgar os foliões no tríduo de Momo, e a temporada do rei da galhofa tinha o seu verdadeiro início com os bailes de máscaras na noite de São Silvestre, os musicistas populares, os sambistas e “marchistas” (esta designação é de Orestes Barbosa) dedicavam também ao Natal muitas de suas produções.

Um sem número de canções brejeiras, de marchinhas saltitantes, falava do nascimento de Jesus, exaltava a bondade do Papai Noel, amigo das crianças, que enchia os sapatinhos postos à janela ou ocultos nos fogões, de brinquedos, de festas. Outras, chorosas, dolentes, interpretavam o lamento, a queixa do menino pobre, desprezado, a quem o velhinho não visitava, não lhe deixava um presentinho qualquer.

Umas e outras, tristes ou alegres, sentidas ou exultantes, diferenciavam inteiramente, no ritmo e no motivo, dos cânticos que os grupos de pastorinhas entoavam nos seus desfiles e nas lapinhas dos presépios. Eram simples canções das ruas, com música e letra fáceis, espontâneas, que o povo de pronto aprendia e as assoviava e cantava nos seus folguedos, nas comemorações natalinas.

Houve uma dessas canções, uma marchinha, composta pelo musicista Assis Valente, que alcançou sucesso extraordinário. Êxito este ainda bem recente e que nos permite lembrar, sem grande esforço de memória, muitos dos seus versos bonitos e expressivos. Era alguém, uma criança pobre, talvez sem mimos. que contava a história do seu Natal triste, sem árvores carregadas de brinquedos, o sapato vazio:

Anoiteceu,
O sino gemeu
E a gente ficou
Tristonha a rezar.

E a canção prosseguia, assim, triste, lamuriosa:

E eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel.

Anos depois, já nas proximidades dos festejos de Momo, quando todo o repertório de músicas alegres, ligeiras, já estava riscado nos discos que as emissoras irradiavam dia e noite, João de Barro lançava uma canção de Natal que havia feito em parceria com Noel Rosa.

O seu ritmo cadenciado, lento, idêntico aos das marchinhas de ranchos e cordões carnavalescos, fez com que a classificassem como “marcha de rancho” embora a sua letra não fizesse referência alguma a pierrôs, colombinas, baianas de roda ou outro qualquer motivo carnavalesco. Descreviam os seus versos, isto sim, e com muita fidelidade a jornada das pastorinhas ao presépio de Belém, seguindo a estrela que anunciava o nascimento de Jesus:

A estrela d’alva
No céu des ponta
E a lua anda tonta
Com tamanho esplendor.

As pastorinhas
Pra consolo da lua
Vão cantando na rua
Lindos cantos de amor.

Seguiam-se outros versos que bem poderiam ser atribuídos ao “velho”, figura característica dos grupos de pastorinhas, ou a um pastor enamorado que os cantasse à sua amada:

Linda pastora,
Morena, da cor de Madalena,
Tu não tens pena
De mim que ando tonto
Pelo teu olhar.

Linda criança,
Não me sai da lembrança,
Meu coração não descansa
De tanto, tanto te amar.

Mas os foliões sem se importar com a letra fizeram-na marchinha carnavalesca. E, nos três dias de folia, blocos, grupos e mascarados cantavam sob chuva de confete o cântico dedicado aos bandos álacres de pastorinhas, a canção que elas deveriam cantar caminhando pelas ruas quando saíssem na noite de Natal para visitar os presépios.

Os musicistas populares esqueceram o Natal...

Dão todo o seu estro, toda a sua bossa ao Carnaval, aos amores de malandro, à vida dos barracos, às histórias dos morros, como se só aí encontrassem inspiração.

Os musicistas populares esqueceram o Natal....

E o nascimento do Menino-Deus é um manancial sublime e encantador de motivos que se podem cantar em versos espontâneos, com melodias fáceis e bonitas.

(Revista da Semana, 21/12/1940)
______________________________________________________________________
Fonte: Figuras e Coisas da Música Popular Brasileira / Jota Efegê. - Apresentação de Carlos Drummond de Andrade e Ary Vasconcelos. — 2. ed. — Rio de Janeiro - Funarte, 2007.