sábado, maio 04, 2013

Nosso Sinhô do Samba - Parte 7

Sinhô, que não aparecera na co-autoria de "Pelo telefone", por ele arrolado como uma das suas produções, foi acusado de plagiário e aproveitador de trechos de outros compositores. Considerando-se vítima de um ludíbrio ao ingressar no cenário musical do Rio, até parece que o sambista deliberara pagar a outros com a mesma moeda. Vingar-se do primeiro logro logrando a terceiros.

Mas o certo é que algumas das acusações feitas a Sinhô se diluem na fragilidade das provas, no vazio das afirmativas. Ressalte-se que à época de tais acusações a música popular ainda era terra de ninguém.

Não havia o direito autoral e geralmente se fazia dono da composição musical o mais esperto, que andasse mais ligeiro. Era corrente o conceito atribuído a Sinhô: “Samba é como passarinho, é de quem pegar”.

Talvez o primeiro acusador de Sinhô tenha sido o seu companheiro das reuniões da Tia Ciata, o tenente Hilário Jovino Ferreira, baiano autêntico, figura de proa nas rodas de samba e iniciador dos ranchos carnavalescos no Rio. Por coincidência também co-autor de “Pelo telefone”. Donga ainda hoje considera Hilário um dos grandes do samba carioca nos seus primórdios, o verdadeiro criador da coreografia do mestre-sala ou mestre de cerimônia dos ranchos, adotada igualmente pelas escolas de samba. Pois esse Hilário — chamado pelos companheiros ‘o bom Hilário’ — reinvestiu violento contra Sinhô quando do lançamento de “Fala meu louro”. Além de achincalhante da Bahia, Hilário considerava o samba “um dos mais audaciosos plágios de que há notícia na história dos sambistas”. A expressão talvez nem fosse do bom Hilário, mas do jornalista ávido de escândalo. E nem a essa altura havia amplitude para se falar em ‘história dos sambistas’. 

Era a segunda arrancada de Hilário contra Sinhô, que já lhe sofrera a réplica quando do lançamento do “Quem são eles?”, contraditado pelo tenente com o “Não és tão falado assim”.

O cronista Vagalume (Francisco Guimarães) publicava no Jornal do Brasil um repto de Hilário com a frase agressiva (1) e ainda a letra (muito bem feita) do samba-revide “Entregue o samba aos seus donos” (2). Sinhô não deu maior atenção ao incidente e continuou. Abafando. Vencendo e conquistando popularidade.

Depois veio a história de “O Pé de Anjo” que com “Pois não”, de Eduardo Souto e Filomeno Ribeiro, foi das primeiras marchinhas carnavalescas (1920) e a primeira impressa com essa designação, uma vez que “Pois não”, talvez por erro tipográfico ou lapso dos autores, trazia impressa a menção de samba.

A história da vitoriosa marcha que se projetou pelo Brasil, de sul a norte, sendo repetida em carnavais sucessivos, demonstra a sagacidade (ou malandragem se quiserem) do grande sambista do Rio. Estava ele na Casa Beethoven quando uma freguesa pede no balcão a valsa francesa “C’est pas difficile” (Jenny), de J. Dorin, da qual havia uma versão brasileira com o título “Jenny”:

Eis uma história singela
De um meigo e triste sabor
Onde figura uma bela
Sacrificada ao amor.

Ò Jenny
Meu sincero amor
Há de ser também
Entendido por ti, ó flor.

Vi-a uma vez na igreja
De olhar contrito a rezar
Como quem pede e deseja
Que Deus a venha perdoar.

O empregado atendeu a moça e, a seu pedido, levou a parte da música ao pianista da casa para que a executasse e a freguesa melhor a identificasse. Quando esta saiu, Sinhô ocupou o piano e começou a fazer variações em torno da melodia da valsa, alterando-lhe o ritmo e acrescentando-lhe uma que outra frase, enquanto ia cantarolando uns versos, Daí surgiria a marcha “O Pé de Anjo”, que registrou no Rio o maior sucesso do Carnaval de 1920 e foi com “Pois não”, de Souto e Filomeno Ribeiro, aparecida no mesmo ano, o ponto de partida da marchinha carnavalesca carioca.

Parece-nos que “O Pé de Anjo” foi o maior (e talvez o único) avanço de Sinhô em melodia alheia. Louve-se entanto a inteligência com que se houve na e1aboraçao dos versos que logo todo o povo cantou, embora não se lhe negue o pecado. Aqui o fabuloso compositor tem culpa alta no cartório.

A história do plágio da valsa francesa foi narrada por Almirante no seu famoso programa “A história das orquestras e músicos do Brasil”, ao microfone da Rádio Tupi, na noite de 6 de agosto de 1946, data que por coincidência lembraria o dia do nascimento do samba carioca. O programa de Almirante procurava atenuar o esquecimento em que jazia o compositor na semana que assinalava o 16° aniversário de sua morte. Esse episódio foi novamente revivido na triunfal palestra proferida por Almirante no golden-room do Copacabana Palace Hotel, na noite de 22 de abril de 1957, sob o patrocínio da Sociedade Teatro de Arte.

Sucesso absoluto em todo o Brasil, no “O Pé de Anjo” Sinhô mais uma vez provocava seus desafetos. A marcha ao que tudo indica era endereçada ao China (Otávio da Rocha Viana), irmão do Pixinguinha, um dos elementos mais visados pelo irrequieto compositor. Nos Estados a versão corrente era de que a marchinha visava ao então chefe de polícia do Distrito Federal, o Dr. Belisário Távora, cidadão de grandes virtudes, católico praticante e homem de físico avantajado.

Como iria suceder freqüentemente, a composição pioneira deu lugar ao surgimento de uma revista teatral, com o mesmo título, da autoria de Carlos Bittencourt e Cardoso de Menezes, que alcançou no Teatro São José o maior sucesso do gênero no Brasil, atingindo a mais de trezentas representações consecutivas. Além da marcha vitoriosa, a revista continha outros números de música de Sinhô. Um dos artistas de maior popularidade, o português J. Figueiredo, ficou famoso com a sua criação do personagem-título que lhe outorgou o apelido pelo resto da vida. No teatro ligeiro, Sinhô obtinha o mesmo êxito que obtivera nas ruas e salões do Rio, durante a grande festa popular.

Outro plágio imputado a Sinhô, na época, teria sido o do samba Dor de cabeça, lançado para o Carnaval de 1925, cujo estribilho, diziam, Heitor dos Prazeres reivindicava como de sua autoria. Improcedente a acusação, segundo a informação pessoal e insuspeita do próprio Heitor dos Prazeres. (3)

Mas se o sambista-pintor dignamente negou qualquer pretensão sua quanto àquele samba, assim nâo acontece com referência aos dois famosos sambas “Ora vejam só” (1927) e “Gosto que me enrosco” (1928-1929). Do primeiro Heitor dos Prazeres reivindica o estribilho gostoso, enquanto sustenta ser de sua autoria toda a primeira parte do “Gosto que me enrosco”:

Não se deve amar sem ser amado
. . . . . . . . . . . .

Heitor dos Prazeres reagiu vigoroso e enérgico contra a apropriação. E tal a sua revolta que não se conteve e lançou dois sambas visando à desmoralização do ‘rei do samba’. Um foi “Olha ele, cuidado” (Carlos Wehrs & Cia., 1415):

Olha ele, cuidado,
Ele com aquela conversa é danado
Olha ele, cuidado
Que aquele homem é danado.

Eu fui perto dele
Pedir o que era meu
Ele com cinismo comigo
Chorava mais do que eu.

Vive de tratantagens
Com todos os seus amigos
De tanto truque que tem
Chega a andar pensativo.

A estrofe final era ruim, mas sincera, pois devia ser lógica e natural a cólera de Heitor, que ainda ferretearia a Sinhô com outro samba, de título sugestivo — Rei dos meus sambas (Irmãos Vitale, 536):

Eu lhe direi com franqueza
Tu demonstras fraqueza
Tenho razão de viver descontente
És conhecido por ‘bamba’
Sendo ‘rei’ dos meus sambas
Que malandro inteligente.

Assim é que se vê
A tua fama Sinhô
Desta maneira és rei
- Eu também sou!

Eu sei que este é
O teu modo de viver...
Só não adoto
É o teu proceder.

Sinhô não gostou das réplicas violentas de Heitor dos Prazeres e se valeu do seu prestígio para impedir que pelo menos um dos sambas agressivos fosse gravado (4).  Ameaçou de processar o acusador. Mais tarde Heitor procurou o sambista rival em Santa Teresa, tendo recebido alguns mil réis (5) como indenização de sua parte no “Gosto que me enrosco”. Continuariam os dois estremecidos até o final, pois Sinhô desapareceria no ano seguinte.

Outra acusação foi feita a Sinhô de haver copiado de alguém (talvez de seu Candu) pelo menos o estribilho do samba “Já é demais” (1930). Também o Seu Candu teria sido Logrado pelo Antonico do Samba (Antônio Silva), que por seu turno sofrera iguais agravos de terceiros (6).

Esses os delitos autorais mais abertamente imputados ao festejado compositor. Os passarinhos pegados pelo inspirado sambista. São pecados que não lhe comprometiam a fama. Eurico Nogueira França considera inocentes tais plágios. Almirante informa que ocorriam freqüentemente na época. Alguns dos trechos aproveitados por Sinhô já eram como que do domínio público, cantados ou assobiados nas ruas.

Luís Peixoto sustenta que tudo isso eram insignificâncias diante da obra de Sinhô e da sua facilidade de composição. Afirma que muito mais teria sido o sambista carioca espoliado na sua produção, copiada aqui e ali, quando não por ele mesmo vendida miseravelmente a outros.

Sinhô viu publicadas mais de cem composições (quase cento e cinqüenta), entre as quais pelo menos dois terços ficaram famosos e foram autênticos êxitos populares num tempo em que não havia ‘paradas de sucessos’ ou outros expedientes publicitários. Almirante fez referência a uma cantiga de sabor sulino que o rádio transmitia de vez em quando como toada popular do Rio Grande do Sul. Era integralmente a canção “Sonho de Gaúcho”, de Sinhô. É que já naqueles tempos os locutores de rádio e os apresentadores de televisão tinham o feio hábito de não citar os autores, mas apenas os intérpretes.

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Notas: (1) O cronista Vagalume jornalisticamente se aproveitava da confusão. Talvez mesmo a incentivasse e a exagerasse. Publicando depois um livro de crônica e memória, “Na roda do samba”, se demora na exaltação de Sinhô. E ao referir-se ao “Fala meu louro” (Papagaio louro) silencia, isto é, esquece o episódio de que fora espalhafatoso porta-voz na imprensa; (2) Capítulo “Vitórias e desavenças.”; (3) Informação prestada por Heitor dos Prazeres ao autor deste trabalho, na tarde de 3 de agosto de 1966, no Hospital dos Servidores do Estado, na presença de Almirante; (4) “Rei dos meus sambas” acabou gravado por Inácio G. de Loiola, disco Parlofon 13071. Não fez sucesso; (5) Trinta e oito mil réis em prestações que se interromperam com o agravamento da saúde do prestamista; (6) Almirante certa vez ouviu detidamente a Antonico do Samba, que morava em Tomás Coelho. Queixou-se o sambista de ter sido prejudicado varias vezes por terceiros que se apropriavam das suas composições no todo ou em parte. Exemplificou com o estribilho do samba “Foi ele que me deixou” (1919-1920) aproveitado pelo Careca; com o estribilho de “Você vai” (1919-1920) utilizado pelo José Francisco de Freitas. Referiu-se ainda a J. Thomás que, sempre sem-cerimonioso, teria encaixado o “Rosa meu bem”, também de 1919-1920, na revista “Ai Zizinha”, publicando-o depois como de sua autoria.

Fonte: "Nosso Sinhô do Samba" / Edigar de Alencar - Edição FUNARTE - Rio de Janeiro 1981.