terça-feira, junho 11, 2013

A morte de Catulo

Catulo da Paixão Cearense, o autor de "Luar do Sertão" e "Caboca de Caxangá" com seu inseparável companheiro, o violão, que muito lhe deve o seu prestígio atual. (Foto: A Cena Muda, 21/Maio/1946)

Na madrugada friorenta de sexta-feira, 10 de maio de 1946, calou-se para sempre a voz do maior poeta popular do Brasil. Morreu Catulo da Paixão Cearense. A lua, que tinha nascido mais cedo, parece que se atrasara propositadamente para iluminar o caminho que aquele grande espírito deveria trilhar para a eternidade. E Catulo deve ter se sentido feliz em fazer a longa caminhada ao lado da que fora sempre a dedicada companheira de suas noitadas de seresta.


“Melodias para Você”, associando-se à profunda consternação causada pela perda do grande vate quer hoje exaltar aquela faceta do seu brilhante espírito criador a qual, em determinada época, colocou-o num plano até hoje não igualado. Queremos nos referir àquela sua incrível facilidade em compor um texto poético para as melodias da época, muitas delas vagamente conhecidas do público e que, de um momento para outro, se transformavam em verdadeiros sucessos populares, passando a figurar no repertório de todo seresteiro que se prezasse.

Catulo foi, por isso, um grande “letrista” e só uma grande alma de poeta pode ir a conseguir ver as suas “modinhas” entoadas, também, pela “granfinagem” da sisuda sociedade de então. Orgulhoso de ser um autêntico trovador, arrancando do seu querido “pinho” as harmonias que sublinhavam os versos que lhe jorravam do coração, escandalizava a todos, menos aos seus fieis companheiros de boemia, que não se cansavam de exaltar o seu valor de verdadeiro intérprete cio nosso cancioneiro popular. E, assim, se mesmo um trovador de sua força seria capaz de fazer com que o violão fosse admitido nos aristocráticos salões do Rio do começo desse século quando, então, não passava de “instrumento de vagabundos”.

Os seus inúmeros livros de modinhas são uma prova evidente da fecundidade do seu talento de letrista. As mais belas composições musicais de Irineu de Almeida, Anacleto de Medeiros, Edmundo Ferreira, João Pernambuco, Eduardo Velho, Ernesto Nazareth, Waldteufel e até célebres árias de óperas como: “La Favorita”, “Lucia de Larmemoor”, “Norma”, “Tanhauser”, “La Traviata” e outras, receberam os seus versos. Ficaram, por isso, popularíssimos em todo o Brasil:

“O meu ideal”:

Pudesse essa paixão
na dor cristalizar
e os ais do coração
em per’las congelar. 

“O talento e a formosura”:

Tu podes bem guardar os dons da formosura... 

“Ontem ao luar”:

Ontem ao luar
Nós dois numa conversação
Tu me perguntaste
o que era a dor de uma paixão...

“Caboca de Caxangá”:

Caboca de Caxangá,
minha caboca, vem cá!

E tantas outras. Entretanto, aquela que jamais deixará de tocar bem fundo os corações dos que já sentiram a grandeza, o esplendor e a magia de uma noite de luar em pleno sertão, “Luar do Sertão”, jóia bem rara do nosso cancioneiro popular, magnífica na pureza e ingenuidade de seus versos:

Não há, oh, gente, oh. não!
Luar como esse do sertão.

Naquela madrugada friorenta, depois de dizer que a vida lhe estava fugindo, fugindo, a sua voz se apagou para sempre. A um canto, o seu violão, velho companheiro de uma longa jornada, talvez houvesse desejado que aquelas mãos se tivessem crispado sobre suas cordas para lhe arrancar, também, o último acorde que traduzisse o seu ultimo adeus. Na sua canção “Talento e Formosura”, Catulo assim finalizou os seus versos:

E eu morto, embora, nas canções hei de ficar... 

Sim! O grande vate há de viver eternamente não apenas nas suas canções populares, mas em toda a sua obra poética, que é grande e fecunda como a terra brasileira que o inspirou.

(Texto de F. C. S.)

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Fonte: A Cena Muda - Melodias para  Você - 21/05/1946.