sábado, maio 27, 2017

Mary Gonçalves: Ela ama a vida e é amada por todos ...


Estreando no rádio aos 14 anos de idade, Mary Gonçalves só tem colhido aplausos em sua trajetória artística ... Elogiada por Villaret ... O cinema é seu sonho ... (Reportagem de Rita D'Assis e fotos de Milan - Cinelândia, novembro/1953)

Neste minúsculo apartamento em que nos encontramos, já couberam nada menos de 70 pessoas, festejando o aniversário de Mary Gonçalves ... É a sua residência, na qual imprimiu todo o encanto de uma personalidade moça e vibrante, apesar da exiguidade do espaço. Na parede nobre do living (que serve também de dormitório), uma original decoração que logo indica ser uma cantora moderna quem mora ali: capas de álbuns de discos de Sinatra, Elvira Rios, Frankie Lain, Ella Fitzgerald, Billy Eckstine e de Dick Haymes, o novo amor de Rita Hayworth ...

Achamos Incompleta essa exposição: faltava-lhe justamente a capa do long-play “Convite ao romance”, que a artista vem de gravar na Sinter, com oito canções que são “O que é amar”, “Dentro da noite”, “Tédio”, “Não vá agora”, “Duvidando”, “Podem falar”, “Escuta” e “Estamos sós” ... E foi Isso que lhe dissemos, quando veio toda sorridente ao nosso encontro, alguns minutos após a nossa chegada, desculpando-se muito por não ter aparecido imediatamente.

— É que estive filmando o dia inteiro, lá no Jóquei Clube, certas cenas de “Uma vida em 15 minutos”, da Sociebrás. Acabava de entrar debaixo do chuveiro ... Quanto ao meu disco, a que se refere, ainda não o recebi, e, por isso, não pode figurar aí ...

O calor da sua presença juvenil, dos seus gestos tão cheios de graça e de espontaneidade, como que faz viver de uma nova vida todo aquele pequeno mundo que a cerca, e que é um pouco de si mesma. Trajando “slacks” e suéter, sua plástica surgia admiravelmente realçada pelas linhas bonitas do conjunto. E, em seu rosto, limpo de qualquer pintura, brilhava o entusiasmo dos verdes anos ...

— Você faz o papel de amazona, nesse filme, não?

— De uma proprietária de alados corcéis, como diria o poeta ... Tão alados, que hoje quase levei uma queda, cavalgando um deles, que tomou o freio nos dentes ...

— Gosta de trabalhar no cinema?

— Adoro! É o que mais me empolga. Entretanto, até então não tive muita sorte com os papéis que me confiaram. Sonho com muito mais!

— E merece, sem dúvida. Não é à-toa que você já ganhou dois “Índios”: em 1948, com “Fantasma por acaso”, de que vimos uma reprise recente; e, em 47, com “Vidas solitárias”, do saudoso Moacyr Fenelon ...

— Este foi o meu primeiro filme. E o último que fiz, até “Uma vida em 15 minutos”, foi “Asas do Brasil”, também desse inesquecível batalhador do cinema nacional. Isso, há três anos já.

Como se vê, era essa uma pausa longa demais para quem tanto se apaixona pela arte da tela. Acontece, porém, que, não obstante a sua esplêndida vitalidade, Mary Gonçalves não chega para as encomendas ... Atua nos “shows” do Casablanca, nos programas das rádios Nacional e Mayrink Veiga, grava discos e, às vezes, integra elencos teatrais. E, é lógico, há ainda o amor, a moda, as reuniões sociais, e tudo o mais quanto a existência oferece a uma pequena assim interessante e sempre interessada por este nosso humano universo ...

Sabíamos, contudo, que a rainha do rádio de 1952, estando nos Estados Unidos, em 51, tivera uma proposta da Columbia Pictures para filmar, e que fizera um teste na RKO para uma gravação “double-face”, em inglês e português.

Confirmou-nos ela ser tudo verdade. Mas, acerca da Columbia, não lhe foi possível aceitar o convite, por estar já de partida marcada para o Brasil.

Indo até à pequenina cozinha do seu apartamento, que ela mesma guarneceu de faceiras cortininhas, Mary começou a preparar um café para nós, enquanto prosseguiu a conversa.

— É solteira? — indagamos, ao constatar assim as suas habilidades de dona de casa.

— Completamente...

— Mas tem seus amores, não?

— Até agora, e por dois anos consecutivos, tive um amor definitivo: Bill Parr.

— Teve? ...

— Bem, nunca se sabe, ao certo, o que pode suceder a um amor, mesmo definitivo ...

Pronto o café, e servido em xícaras coloridas, Mary nos disse que o seu hobby n.º 1 é arrumar o seu cantinho doméstico, escolher os objetos que ali põe logo em uso (nada para guardar — acrescenta — que o lar não é museu!) e ... no momento procurar um novo apartamento, pois quer morar com mais conforto e poder receber melhor as suas relações.

— E qual o seu maior desejo?

— Conservar-me sempre jovem, e também viajar.

— E quanto às suas aspirações artísticas?

— Que o público me aplauda sempre, que jamais me esqueça!

Isto, realmente, não é difícil, tratando-se de Mary Gonçalves, elogiada por todos, querida das plateias elegantes e dos radiouvintes de todo o país, e a quem Villaret saudou como a intérprete mais pessoal no gênero de canções a que ela se dedica.

Aliás, desde muito cedo que a risonha artista revelou a sua vocação. Nascida em Santos, a 25-10-1927, estreou como rádio-atriz na Tupi de São Paulo, já aos 14 anos de idade. A arte estava em seu sangue, pois seu pai, hoje advogado, o Dr. José Figueiredo Rocha, que é português de origem, fora ator em Coimbra, e, em Santos, onde a família fixou residência, atuou na rádio Atlântida.

Daquela cidade do litoral paulista, vem Mary paia o Rio, na época em que funcionavam os casinos, contratada como “crooner” da boate Meia-Noite e para o show do “Grill-room” do Copacabana. E daí para o cinema o rádio e o teatro cariocas foi apenas um pulo, ou melhor, um recorde de salto para as alturas.

Sorte é o que não lhe falta, apesar do que ela nos declarou sobre os papéis que tem desempenhado no cinema. Também, pudera: Mary não passa debaixo de escada, não pode ouvir a palavra "azar" sem bater na madeira, etc. e tal! ... Em compensação, julga o número 13 um bom fetiche. Entenda-se a alma feminina ...


Fonte: Revista "Cinelândia", edição 24, novembro de 1953 - Rio Gráfica e Editora.